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sexta-feira, 16 de maio de 2014

DARK VICTORY, 1939.

Em 1934, Bette Davis conseguiu provar pela primeira vez para os executivos da Warner que valia a pena acreditar nela. Sua Mildred de OF HUMAN BONDAGE(SERVIDÃO HUMANA) era o triunfo de uma atriz talentosa sem medo de aparecer desprovida do glamour que era exigido nas telas. Ela estava pronta para vencer e este personagem, que vai até o fundo do poço sem maquiagem e com cabelo desgrenhado, era a resposta. Bette estava cansada de interpretar roteiros que considerava fracos, com diretores em quem não confiava. O estúdio tinha má vontade com ela, atrelado à crença de que Bette não possuía a beleza padrão hollywoodiana. A antipatia daqueles homens era tamanha, que foi preterida do Oscar por este papel, tendo ganho no ano seguinte por DANGEROUS(PERIGOSA).

1939 foi o ano dela, no entanto, antes disso, foi preciso uma longa caminhada para se assegurar da realização de seus sonhos. Em 1937, com MARKED WOMAN(MULHER MARCADA), conseguiu convencer os sisudos da Warner a respeito da maquiagem em um particular momento do filme: a personagem Mary se encontrava em uma cama de hospital e precisava se recuperar do severo espancamento que havia sofrido por um grupo de covardes. Ela declarou à produção que seria impossível aparecer glamourosa depois de ter o rosto tão machucado. Consultou um especialista e voltou ao set de filmagem com sua ideia de maquiagem na cabeça. "Mas como você vai aparecer assim"? "Ninguém vai aceitar"! Bette insistiu e o resultado não poderia ter sido mais realista.

E assim veio IT'S LOVE I'M AFTER(SOMOS DO AMOR), no mesmo ano - sua terceira parceria com Leslie Howard e o primeiro dos quatro filmes que faria com Olivia De Havilland. Além daquele que é considerado um dos seus maiores sucessos: JEZEBEL, em 1938. E Bette novamente conseguiu convencer a Warner; desta vez para filmar DARK VICTORY. A base da negativa do estúdio, nesse caso foi a de que o final do filme era muito triste e o público não gostava quando uma estória terminava com tristeza. Ela defendeu sua ideia dizendo a eles que não se tratava de um final triste, pois ela morria lindamente. Existia a morte, sim, mas de uma forma bela e digna. O fato é que Judith Traherne traria a Bette várias nuances de personalidade. Ela poderia explorar muito a fundo seu talento, como um pintor escolhendo as cores para seu novo quadro.

Isso sem contar com a possibilidade de mostrar às audiências uma mulher alegre, cheia de vontade de viver(o que era bem perto da própria Bette Davis), diferente das jovens amargas que já estava farta de interpretar. Judith, uma socialite de 23 anos, vive uma boa vida, com seus amigos, suas festas e nenhuma preocupação no mundo. Isso até ser diagnosticada com um tumor cerebral. Edmund Goulding, diretor que Bette muito respeitava, foi encarregado desta obra e acabou realizando outro feito belíssimo: dividir com Elsie Janis a composição de GIVE ME TIME FOR TENDERNESS. A música é cantada por Vera Van em uma das cenas mais marcantes de DARK VICTORY. Judy sai para beber depois de descobrir que seu tumor é maligno. Devastada com a notícia, ela se vê na letra da bela canção, que diz: "Deixe meu coração acalmar e ouvir uma canção de amor/deixe-me sentir a emoção da quietude que desconhecemos/oh, me dê tempo para a ternura de segurar a sua mão e entender...". 

A tensão de Bette no filme não era só atuação, nem era à toa. Sua vida sentimental estava indo de mal a pior. Separada de seu marido Harmon Nelson(Ham), de quem se divorciaria pouco mais tarde, se viu muito doente quando soube que seu amante, o diretor William Wyller estava de casamento marcado para muito em breve. Os dois viviam discutindo pois Wyller desejava se casar com ela, porém nunca chegaram a um acordo final. Deprimida por esta perda e pelo fim de seu casamento, passou vários dias sem comparecer ao estúdio, onde todos a esperavam para filmar. Outra chateação para Bette foi não ter conseguido Spencer Tracy, artista por quem ela tinha imensa admiração, como seu par romântico. No lugar dele(que sofria de severo alcoolismo) foi colocado George Brent. O elegante ator não poderia ter feito melhor performance, como o médico que descobre o mal de Judy e se torna o grande amor de sua vida.

Os dois astros desenvolveram um caso amoroso na vida real. Brent foi o grande responsável pela calma de Bette naquele período. Ela, que era suscetível a colapsos nervosos, conseguiu então cumprir seu cronograma em DARK VICTORY. A novata Geraldine Fitzgerald foi outra companhia que a ajudou a dissipar, mesmo que momentaneamente, a dor em ter dois relacionamentos fracassados. As duas se tornaram grandes amigas, desde então. Era o primeiro grande papel de Geraldine no cinema, mas este detalhe não transpareceu, já que a atriz se destaca como Ann, a fiel escudeira de Judy. No relacionamento entre as duas moças, o público percebe uma amizade desejável a todos: o amigo que está presente em momento de doença, quando não existe mais nada a ser feito. A força de Ann passa para Judith durante o filme, onde a personagem revê sua vida e os conceitos que tinha dela. Ela se redescobre uma nova e mais madura mulher, e no final, o que poderia se tornar uma jornada de pavor diante da morte, acaba por se transformar na vitória amarga; o amor que é maior que a vida e a perda dela.
A cegueira da personagem é outro ponto taxativo de brilhantismo no desempenho de Bette. Desde o único olho cego no início do filme, onde ela queima seus dedos ao tentar acender um cigarro, até a cena em que planta as sementes de uma flor(o simbolismo do amor que ficará depois de sua ida): a cegueira se torna outro simbolismo em DARK VICTORY. O que no início era a incapacidade de ver o que a vida tinha de bom para ela, agora representa a verdadeira visão de sua existência, que são o amor e a amizade indestrutíveis. Humphrey Bogart tem um bom desempenho como Michael O'Leary, o funcionário do rancho apaixonado por Judy, além de Ronald Reagan, como o amigo playboy fanfarrão, porém sincero. DARK VICTORY foi produzido por David Lewis e Hal. B. Wallis(homem que teve influência magnífica na vida e carreira de Bette Davis). Com trilha sonora de Max Steiner e figurinos impecáveis de Orry-Kelly(especialmente o traje de peles que Bette usa quando descobre sobre seu tumor), este é um filme que vai além do melodrama. Fala sobre os sentimentos não só na forma trágica, mas também com suavidade, e apesar das mensagens, típicas do gênero, consegue transmitir ao público uma visão mais realista da vida, tão forte e grandiosa quanto suas atuações.








sexta-feira, 2 de maio de 2014

THE POSTMAN ALWAYS RINGS TWICE, 1946.




É noir...é em preto e branco...perverso...e de excelente qualidade.
O irresistível jogo de sedução envolvendo Lana Turner e John Garfield em O DESTINO BATE À PORTA consolidou os dois atores como astros irrefutáveis das telas. O resultado não poderia ter sido diferente: a produção de 1946 tem direção impecável de Tay Garnett, baseada na obra de James M. Cain(o mesmo autor de Pacto de Sangue e Mildred Pierce), traz a sensualidade de Lana Turner(Cora Smith) aliada à pura vilania, além da atuação extraordinária de John Garfield como o louco de amor Frank Chambers. Em adicional, o brilhantismo de Cecil Kellaway como Nick Smith, o marido traído; a vítima prestes a ser abatido como um cordeiro. Tudo em nome da ganância e busca pelo poder.

O casal de amantes arquiteta um plano, que embora fosse para eles infalível, se desgraça quando a paixão entra no lugar da razão. A mente fria e calculista de Frank entra em colisão com o sentimento de desejo por Cora. Depois do grande erro da primeira tentativa, entra em cena o plano B: matar o bom velhinho dentro do carro e empurrá-lo penhasco abaixo. A esta altura, os apaixonados não raciocinam mais, tamanha a cegueira pelo dinheiro e o desespero em ver o homem( a pedra no sapato) morto. Lana Turner representa fielmente o papel da femme fatale que não se redime. Cruel até o fim, seduz o personagem de Garfield até deixá-lo a ponto de cometer um crime. Entra nesse momento o típico "você faria qualquer coisa por mim? Qualquer coisa mesmo?" e ele cede. À princípio, ele não queria matar, porém se não o fizer jamais terá a mulher que deseja em seus braços novamente. E Cora, que não era nada na vida, agora é ávida pela consumação do assassinato do homem que lhe deu tudo. Casada por conveniência, ela quer o restaurante de Nick para si.

A sexualidade entre os dois amantes é tão latente neste filme, que chega a ser ridícula a presença de tantas cenas de sexo na segunda versão dos anos 80, com Jessica Lange e Jack Nicholson. Na produção de 1946 o público embarca na aventura ardente sem precisar ver o ato, pois sentem e percebem tudo o que acontece entre os dois. O ódio inicial, os olhares desejosos, o batom que rola no chão. O cigarro aceso, a câmera que filma Lana de baixo à cima, com seu conjuntinho branco composto de short e blusa, na cena mais antológica do longa. Um acusa o outro quando encurralados na prisão. Cora o destrói mas também é destruída. Nunca mais viveria em paz e apesar de solto, o casal é chantageado e coagido, o que culmina em uma grande tragédia. Reféns da vingança. Vítimas de suas próprias armadilhas. Os ardilosos agora são fracos. O covarde sempre sucumbe quando cessam suas armas. Fugindo de todas as evidências, eles tentam correr de tudo o que criaram, vivendo um verdadeiro inferno de criminosos.

Todas as roupas que Lana Turner usa no filme são brancas. Exceto o vestido preto que ela usa para ir ao velório da mãe(o mesmo modelo branco do início da história). Criadas pela lendária Irene, o branco do vestuário contrasta com o caráter nada pacífico de Cora, assim como o loiro platinado de seus cabelos. A atriz não aprovou John Garfield como seu parceiro em THE POSTMAN... Em sua autobiografia, ela disse: "Meu Deus, não poderiam ao menos ter arranjado alguém bonito"? Naquela época, John já havia colhido os frutos de sua bem-sucedida parceria com Bette Davis: a fundação do Hollywood Canteen, durante a 2ª Guerra Mundial. A cantina era o principal elo de ligação entre os combatentes e seus queridos ídolos da tela prateada. Neste mesmo ano, filmou com Joan Crawford o belo HUMORESQUE, no papel do raivoso violinista que se envolve com uma mulher mais velha. Um ano depois viria o sucesso GENTLEMAN'S AGREEMENT(A LUZ É PARA TODOS), porém sua vida foi encurtada por um sério problema cardíaco, falecendo aos 39 anos de idade.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

"Charlotte e Seu Bife", 1960



As coisas mais simples da vida pulam aos nossos olhos em cenas de cinema. A tela grande é a melhor forma de apresentar ao público uma nova forma de ver o mundo e as pessoas. Saber tirar proveito de um momento tão singelo quanto uma conversa enquanto come um bife, por exemplo. As lentes experimentais do cineasta Éric Rohmer captaram isso: enquanto prepara seu bife na cozinha de casa, Charlotte(Anne Couderet) conversa com seu namorado Walter(Jean-Luc Godard) sobre uma garota que ele conhecia, Clara(Andrée Bertrand). Ela começa a se comparar à outra moça, com ciúmes. Esse sentimento foi despertado propositalmente por Walter quando apresentou Clara à Charlotte. Um pouco antes, andando na neve, os três tentam uma conversa fluida, sem sucesso. Estão sem graça e sem assunto. Um ínfimo som e uma delas diz "o quê? Desculpe, pensei que tivesse falado comigo".
Quase todos os casais de namorados já passaram por isso. O ciúme normalmente gera insegurança. Imediatamente a garota passa a duvidar de seu parceiro, em busca da resposta para a tão conhecida questão: "O que ela tem que eu não tenho?". Embora não seja empolgante, o curta, que foi um dos primeiros trabalhos de Rohmer, cativa por que faz com que as pessoas se identifiquem com a história. Muitos consideram o filme chato ou lento demais. Filmado em 1951 com Anne Couderet e Andrée Bertrand, CHARLOTTE ET SON STEAK foi lançado somente em 1960. As vozes das atrizes foram dubladas por Anna Karina(como Clara) e Stéphane Audran(como Charlotte). Outra curiosidade é ver Jean-Luc Godard atuando. O trabalho dele é bem feito, como o jovem namorado frágil, mas ao mesmo tempo estrategista e instigador. Ao longo de sua carreira como diretor, Godard seguiu atuando, mesmo que por várias vezes muito sutilmente, sem aparecer nos créditos(especialmente nos anos 60).

A personagem Charlotte está com viagem marcada de trem e tem pressa. Mesmo assim dá um pulinho com Walter até sua casa. Ela está com fome, mas não o convida para entrar. Os maus tratos não o intimidam, já que a irritação era exatamente o que ele queria da garota. Na porta da cozinha, ele a observa cozinhar. Abre a porta da pequena geladeira e pega carne e manteiga. Prepara tudo e senta à mesa para degustar a comida. O interessante deste curta é observar que, muitas vezes na vida, uma simples refeição pode mudar os acontecimentos. Através do diálogo, aprendemos a tomar decisões, como o fim de um namoro ou a sua continuação. O desentendimento ou uma reconciliação. Ela pensa em que resposta dar, enquanto mastiga. E mais um pouco de reflexão ao colocar outro pedaço de carne na boca. Escolhas podem ser feitas com apenas 10 minutos, entre uma caminhada e um momento na cozinha de casa. Durante a breve refeição, entre cortes de um pequeno bife e garfadas, se desenrola uma discussão elegante, com palavras bem escolhidas e contidas, o que se tornaria mais tarde uma das características de estilo de Rohmer. Com formação católica, trouxe para seus longas e curtas um fundo com a moral e os bons costumes pregados pela sociedade ocidental. Nascido em Tulle, na França, em 20 de março de 1920, foi também professor e escritor, além de ter tido participação fundamental na respeitada publicação francesa sobre cinema, "Cahiers Du Cinéma". Cada um pode desenvolver sobre o quê entendeu no final do curta, através da sensibilidade dos atores. Abraços de insegurança, beijos de preocupação. Uma mistura de sentimentos dos dois jovens, que não leva a ler neles uma verdadeira paixão mas sim um "cuidar" com o outro, sem pena e talvez, com um pouco de amizade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014